domingo, 4 de março de 2012

"Efeito Tesoura" e Risco de Insolvência - Parte I

Uma das questões cruciais da gestão financeira de uma empresa, diz respeito a que se consiga garantir que sua sobrevivência, o crescimento dos seus negócios e o crescimento do seu valor de mercado, sejam objetivos de longo prazo possíveis, sem incorrer-se no risco de um fenômeno financeiro denominado de "Efeito Tesoura" - fenômeno caracterizado pela ocorrência de saldos de tesouraria (T), sistematicamente e crescentemente negativos e que pode levar a empresa à uma situação de insolvência.
O "Efeito Tesoura" tenderá a acontecer quando, para atender o crescimento continuado de suas vendas brutas (Vendas brutas = receita bruta de vendas - devoluções e abatimentos), a empresa precisar investir quantidades cada vez maiores de recursos em seu giro (variação positiva da NCG), mas a expansão da capacidade de financiamento com fontes estratégicas líquidas (variação positiva do CDG) não conseguir acompanhar o crescimento desse investimento.
Esse desequilíbrio irá exigir o uso de proporçoes cada vez maiores de dívida líquida bancária de curto prazo (T<0 = saldo negativo de tesouraria) para financiar suas necessidades operacionais.
Isso irá acontecer porque o saldo de tesouraria (T) a que nos referimos - que vem a ser um indicador da existência ou não da liquidez de uma empresa, resulta da diferença entre a quantidade de fontes estratégicas líquidas (CDG) que ela tenha à sua disposição e o volume de investimento líquido em seu giro (NCG) capaz de garantir o nível de operações planejado por sua administração.
T = CDG - NCG
Logo, as variações do volume de T serão determinadas por variações tanto do volume de capital de giro disponível quanto por variações do investimento operacional em giro, isto é:
Variação do T = Variação do CDG - Variação da NCG
Consequentemente podemos afirmar que se as variações do CDG forem sistematicamente e crescentemente inferiores às variações da NCG, os saldos de T serão também sistematicamente e crescentemente negativos, configurando uma tendência a ocorrência do "Efeito Tesoura".
Matematicamente podemos representar esse desequilíbrio como:
Variação do CDG < Variação da NCG => Variação de T < 0
Então, para entender a origem do desequilíbrio causador do "Efeito Tesoura", temos de compreender a dinâmica dos fluxos de NCG e CDG dentro da empresa.
As variações do capital de giro disponível têm origem na quantidade de autofinanciamento (AUT = Lajida + Resultado Financeiro - IR e CSSL - Participações - Dividendos e/ou Juros Sobre o Capital Próprio) gerado das atividades operacionais e financeiras da empresa; e no resultado do fluxo líquido de novas fontes estratégicas (FLRE), proporcionado pela diferença entre as captações de novas fontes estratégicas (aportes tanto de dívida bancária de longo prazo quanto de capital próprio) e os novos investimentos em ativos não-circulantes (realizáveis a longo prazo, investimentos, imobilizados e intangíveis).
Variação do CDG = AUT + FLRE
Por sua vez, as variações da necessidade de capital de giro têm origem tanto nas variações do volume de vendas brutas (VB = Vendas Brutas = Receita Bruta de Vendas - Devoluções e Abatimentos) quanto nas variações do tamanho do ciclo financeiro (CF = prazo médio de recebimentos operacionais + prazo médio de renovação de estoques - prazo médio de pagamentos operacionais) praticado pela empresa.
Variação da NCG = f (Variação de VB, Variação do CF)
Então, podemos afirmar que:
Variação do T = AUT + FLRE - Variação da NCG
Logo, admitindo-se que a administração da empresa enfatize o uso de novas fontes estratégicas para financiar novos investimentos em ativos de longo prazo e ativos fixos, gerando um FLRE = 0, o risco do "Efeito Tesoura" existirá sempre que:
AUT < Variação da NCG => Variação de T < 0
Em termos objetivos, podemos dizer que o risco do "Efeito Tesoura" irá existir sempre que a margem de autofinanciamento sobre vendas (AUT/Vendas) praticada pela empresa for inferior à sua taxa marginal de investimento operacional em giro (Variação da NCG/Vendas). Ou se quisermos:
AUT/Vendas < Variação da NCG/Vendas => Variação de T < 0
Cabe aos gestores do empreendimento encontrar as causas desse desequilíbrio - sejam elas internas ou tenham relação com o comportamento do ambiente econômico no qual a empresa esteja inserida, e sugerir soluções capazes de garantir os objetivos pretendidos.
No próximo texto iremos enfocar as principais causas do desequilíbrio gerador do "Efeito Tesoura".
Bibliografia:
BRASIL, Haroldo Vinagre e BRASIL, Haroldo Guimarães. Gestão financeira de empresas. Rio
de Janeiro: Qualitymark, 2002.
COSTA, Luiz Guilherme Tinoco Aboim, LIMEIRA, Andréia Fátima Fernandes, GONÇALVES, Hiram de Melo e CARVALHO, Ueliton Tarcisio. Análise econômico-financeira de empresas. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2009.
FLEURIET, Michel, KEHDY, Ricardo e BLANC, Georges. O modelo Fleuriet. Rio de Janeiro: Campus, 2003.
VIEIRA, Marcos Villela. Administração estratégica de capital de giro. São Paulo: Atlas, 2008.